Doutoramento em Estudos da Criança, Educação Física, Lazer e Recreação

36Realizaram-se na passada sexta-feira, 24 de novembro de 2017, às 14h, as Provas de Doutoramento em Estudos da Criança, na especialidade de Educação Física, Lazer e Recreação requeridas pelo Mestre Sérgio Augusto Rosa de Souza, tendo como orientadora a investigadora do CIEC Maria Beatriz Ferreira Leite Oliveira Pereira. O júri foi presidido pelo Doutor Licínio Carlos Viana Silva Lima, tendo estado presentes os seguintes vogais: Doutora Maria Beatriz Ferreira Leite Oliveira Pereira, da Universidade do Minho; Doutora Maria Paula Maia dos Santos, da Universidade do Porto; Doutora Inês Peixoto Silva, da Universidade do Minho; Doutora Eduarda Maria Rocha Teles de Castro Coelho, da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro; Doutor Amauri Aparecido Bássoli de Oliveira, da Universidade Estadual de Maringá. No final, o júri deliberou, por unanimidade, aprovar o candidato atribuindo-lho a menção de “Muito Bom”.

Título da Tese: “Por que não vou caminhando ou pedalando para a escola? Os fatores ambientais e os modos de deslocamento na rotina de crianças”

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Resumo: Atualmente constata-se um quotidiano cada vez mais distante de comportamentos ativos em crianças e adolescentes e, por isso, torna-se fundamental criar estratégias que visem o aumento do nível de atividade física nestes grupos. Ir e vir a pé ou de bicicleta para a escola (deslocamento ativo), tem assumido especial relevância pois caracterizam-se como possibilidades de colaborar no cumprimento das recomendações internacionais do nível diário de atividade física e de estimular comportamentos ativos no quotidiano de crianças e adolescentes. No entanto, estudos têm demonstrado que diversos fatores (intrapessoais, políticos, ambientais, etc.) podem influenciar na decisão e opção de modos de deslocamento para a escola. Neste sentido, esta investigação teve como objetivo principal identificar e analisar os modos de deslocamento de crianças no trajeto casa-escola e sua associação com os fatores ambientais e intrapessoais de alunos e respetivos encarregados de educação como limitadores ou motivadores ao deslocamento ativo. O estudo é descritivo transversal, realizado com alunos do 5º e 6º ano de escolaridade de quatro escolas públicas da Região Norte de Portugal e duas escolas públicas do estado do Maranhão – Brasil. Participaram neste estudo 721 alunos e 497 encarregados de educação. Por opção metodológica de análise de distintas perspetivas da temática do deslocamento ativo, os resultados foram organizados em cinco estudos. Iniciamos com uma Revisão Sistemática sobre o tema e sua relação com os fatores ambientais (distância / segurança); de seguida analisamos os fatores intrapessoais e ambientais, a bicicleta no quotidiano, perceções e justificativas sobre as possibilidades do deslocamento ativo para a escola de alunos e encarregados de educação de Portugal e, concluímos com os modos de deslocamento para a escola, perceções e preferências de alunos portugueses e brasileiros. Para a coleta de dados foram utilizados dois questionários administrados aos alunos e respetivos encarregados de educação. Contêm perguntas abertas e fechadas e, abordam os aspetos relacionados aos modos de deslocamento no quotidiano como perceções, barreiras, utilização da bicicleta e fatores que influenciam as possibilidades do deslocamento ativo no trajeto casa-escola. Os principais resultados elencados a partir dos cinco estudos desenvolvidos evidenciaram que, 20,1% dos alunos portugueses inquiridos se deslocam ativamente para a escola, nomeadamente a pé, considerando que nenhum aluno declarou utilizar a bicicleta. Relativamente aos alunos brasileiros inquiridos, 21,8% vão para a escola pelos modos ativos (19,8% deslocam-se a pé e 2% utilizam a bicicleta como modo de deslocamento para a escola). Relativamente às crianças portuguesas que residem a uma distância da escola considerada adequada aos modos ativos (até 3-3,2km), os resultados mostraram-se superiores, atingindo os 36,4% de alunos que vão caminhando para a escola. No entanto, estes resultados evidenciam o alto percentual de crianças (63,6%) que vão para as aulas em seu quotidiano pelos modos passivos de deslocamento, em sua maioria de automóvel. Os resultados dos alunos portugueses revelam também a existência de diferenças significativas entre a % de deslocamento ativo efetivo (20,1%) e a percentagem de como desejariam se deslocar, uma vez que, 75% dos alunos desejariam deslocar-se por modos ativos, sendo 20,1% a pé e 54,8% de bicicleta. Fatores intrapessoais (sexo, nível de escolaridade, grupo etário e aspetos relacionados à prática de atividade física) dos alunos e encarregados de educação portugueses não se mostraram significativos em relação ao deslocamento ativo. Contudo, os fatores ambientais como a área em que a escola está localizada, a distância casa-escola e os aspetos relacionados à segurança no trajeto (trânsito e em geral) mostraram-se significativos em relação aos modos de deslocamento. Crianças que residem mais próximo das escolas e que estudam em escolas situadas em contexto urbano apresentaram maiores percentagens de deslocamento ativo no quotidiano escolar. Destaca-se que, no geral, como justificativas positivas em relação às preferências pelos modos ativos de deslocamento para a escola (a pé/bicicleta) os alunos elencaram preferencialmente a ‘Diversão/prazer’ e a ‘Prática de Atividade Física’ e, os encarregados de educação elencaram a ‘Prática de Atividade Física’ e a melhoria da ‘Autonomia/Independência’ de seus educandos. Por outro lado, a ‘Longa distância’ e os aspetos relacionados à ‘Insegurança/Trânsito’ e ‘Insegurança/Geral’ foram elencadas como justificativas negativas mais preponderantes em relação às preferências pelos modos passivos de deslocamento. As questões relacionadas à segurança em geral (assédios, assaltos, etc.) foram mais percecionadas como aspetos negativos ao deslocamento ativo por alunos brasileiros em detrimento dos alunos portugueses, que se mostraram mais incomodados com as questões de insegurança no trânsito. Em análise específica sobre a utilização da bicicleta por alunos portugueses que residem até 3km da escola, os resultados mostraram que, apesar de nenhum aluno a utilizar como modo de deslocamento para a escola, aproximadamente 55% desejariam ir pedalando em sua rotina escolar. Os resultados mostraram ainda que a maioria dos inquiridos possui bicicleta (88%), sabe andar (89%), a utilizam para as atividades de lazer (79%) e na companhia de familiares (89%). Considerando os resultados obtidos, conclui-se que a prevalência do deslocamento ativo para a escola dos alunos investigados foi inferior quando comparada com percentagens de outras regiões de Portugal, Brasil e outros países. Apesar das crianças terem uma relação próxima com a bicicleta no seu quotidiano, não a utilizam como meio de transporte utilitário para a escola. Adicionalmente, evidenciaram-se percentuais superiores de desejo pelos modos ativos de deslocamento em detrimento de como efetivamente os alunos se deslocam em seu quotidiano escolar. Benefícios de caráter individual (diversão, prática de atividade física, autonomia) foram os aspetos positivos mais relatados como justificativas positivas ao desejo do deslocamento ativo e os fatores ambientais (distância, segurança) foram apontados como as principais justificativas negativas em relação à negação pelos modos ativos de deslocamento para a escola. Estes resultados obtidos vão ao encontro do apresentado pela literatura, que evidencia a importância dos fatores ambientais (distância/segurança) como preditores dos modos ativos de deslocamento para a escola em crianças do 5º e 6º ano de escolaridade. Recomenda-se que estudos e intervenções que objetivem potencializar os modos ativos de deslocamento de crianças para a escola sejam planeadas e executadas envolvendo os diversos atores e instituições intervenientes (escola, alunos, encarregados de educação, gestores da cidade, etc.), destinando especial atenção aos aspetos relacionados com o contexto e ambiente como a distância e segurança no trajeto casa-escola.

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