Entrevista com a professora Maria Assunção Flores, Projeto Teachers Exercising Leadership

Confira a entrevista da professora Maria Assunção Flores, membro do CIEC, concedida ao “Nós”, Jonal On Line da Universidade do Minho:

“Professores estão a perder motivação”
A motivação dos professores está em quebra, em contraciclo com o aumento da sua autoestima, empenho e confiança na profissão. Estas são as conclusões da primeira fase do projeto TEL – Teachers Exercising Leadership, que envolve mais de 2700 professores e é coordenado pela professora Assunção Flores, do Centro de Investigação em Estudos da Criança (CIEC) do Instituto de Educação da UMinho. Este estudo financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia iniciou em janeiro de 2011 e decorre até outubro de 2013. A equipa tem como consultor David Frost, da Universidade de Cambridge. O grupo é constituído por investigadores da UMinho e professores de vários agrupamentos e escolas secundárias do país.
Texto e fotos: Pedro Costa
O principal objetivo do TEL é desenvolver o profissionalismo docente através do exercício da liderança. Neste âmbito, a liderança do professor envolve não apenas a liderança do ensino e da aprendizagem na sala de aula, mas também o desenvolvimento de inovações e a construção de conhecimento profissional para além da sala de aula. Um dos aspetos que mais sobressai dos dados apurados até ao momento é a indefinição e ambiguidade dos itens relacionados com o exercício da liderança e que estão a ser aprofundados na segunda fase do projeto, explica Assunção Flores em entrevista ao NÓS.Que metodologia seguiu o TEL?
O projeto encontra-se na segunda fase de recolha de dados e é orientado por uma metodologia mista que combina uma diversidade de métodos e técnicas e de participantes, embora com maior incidência nos professores, dado que pretendemos estudar a liderança dos professores no sentido de potenciar o seu profissionalismo docente. Na primeira fase, foi realizado um inquérito por questionário a nível nacional, tendo participado 2702 professores de Norte a Sul do país, portanto, incluindo as cinco direções regionais de Portugal continental. Nesta segunda fase estamos a aprofundar algumas dimensões dos dados quantitativos em cinco grupamentos/escolas e, neste caso, para além dos professores, estamos também a auscultar as lideranças das escolas e os alunos.

Que trabalhos decorrerão na terceira e última fase?
Está previsto o desenvolvimento e avaliação de estratégias e de iniciativas de liderança em várias escolas do Norte do país.

Que resultados considera mais relevantes?
Os resultados iniciais foram debatidos num seminário em maio, com a participação de muitos professores, académicos e investigadores nacionais e estrangeiros. Em termos gerais, podemos dizer que se destacam quatro eixos fundamentais que se prendem com o contexto político, social e cultural em que se inscreve a profissão docente; o plano organizacional ligado às lideranças, estruturas e culturas das escolas e ao contexto da sala de aula; o desenvolvimento profissional que se associa ao modo como os professores se sentem enquanto profissionais e ao modo como têm mudado, ou não, associado a questões de motivação, eficácia, de realização profissional, entre outros, e ainda o plano dos alunos.


Assunção Flores, docente e investigadora do Instituto da Educação da UMinho, é a coordenadora do projeto.

Quais os fatores mais citados pelos profissionais da educação?
Os inquiridos referem que, nos últimos três anos, os fatores que contribuíram para menor satisfação profissional foram, entre outros, o excesso de burocracia, a falta de reconhecimento da profissão, a avaliação do desempenho, as alterações legislativas constantes, o congelamento da carreira, a falta de tempo, o aumento do volume de trabalho e a intensificação do trabalho docente, a redução do salário, a deterioração do relacionamento profissional, a falta de reconhecimento do trabalho, a indisciplina dos alunos, o excesso de alunos por turma, o desinteresse dos alunos, o modelo de gestão e a constituição dos mega agrupamentos. São aspetos que estão a ser aprofundados nesta fase de recolha de dados e que se prendem com o sentido de profissionalismo docente, com o modo como os professores se veem e vivem a profissão, mas também com fatores externos. Emerge, portanto, uma conceção de profissionalismo marcada pela ambivalência, pelo conflito e pela ausência de referentes claros, e que se relaciona, em grande medida, com a tensão entre o nível da decisão política e curricular e o nível da prática.

É possível retirar conclusões neste estudo que apontem para as próprias políticas de ensino?
Sem dúvida, estes dados estão a ser trabalhados em profundidade em cinco agrupamentos/escolas do país no sentido de perceber as ambiguidades e tensões que perpassam algumas dimensões em estudo, mas também do envolvimento e participação dos professores no sentido da mudança e da melhoria da escola. E este aspeto está associado ao reforço do seu profissionalismo docente, que pode ser potenciado através do exercício da liderança, reconhecendo e valorizando o contributo dos professores para os esforços coletivos de melhoria da educação e do ensino, superando as lógicas atuais dos discursos do profissionalismo docente que surgem marcadas por um conjunto de paradoxos. Assim, a participação e a agência dos professores e os seus propósitos morais assumem uma importância vital, pois o modo como entendem os seus papéis e as suas tarefas e a natureza do próprio ensino nos contextos em que trabalham é vital para o sucesso da mudança e para a melhoria da qualidade do ensino e da aprendizagem nas escolas.


A maioria dos inquiridos admite que a sua motivação e realização diminuiu, embora a autoestima, empenho e o reconhecimento tenham subido.

Como poderemos definir o conceito de liderança num professor?
A liderança não se centra apenas no desempenho de papéis e responsabilidades, mas diz respeito ao modo como os professores fazem a diferença nos seus contextos profissionais através da agência e da participação em iniciativas inovadoras na escola. Em muitos contextos, termos como liderança distribuída têm sido usados amplamente e tendem a enfatizar mais a capacitação dos chefes de departamentos e das equipas de gestão na escola, reforçando-se, assim, a liderança formal em oposição à liderança informal, que existe, independentemente de uma determinada função ou responsabilidade na escola. O conceito de liderança envolve não só os professores líderes da aprendizagem nas suas salas de aula, mas também a liderança da inovação e a construção do conhecimento profissional dentro e além das salas de aula.

Há algum indicador quanto à precariedade laboral?
Estes dados surgem ligados aos fatores que têm tido um impacto negativo no trabalho docente e aos aspetos que têm contribuído para menor satisfação profissional. Para além dos fatores referidos, os inquiridos citam também o congelamento da carreira, a redução do salário, a falta de tempo que surge associada à intensificação do trabalho docente, às condições de trabalho e ao excesso de alunos por turma, entre outros. Estamos neste momento a levar a cabo uma triangulação dos dados e o cruzamento de algumas variáveis que nos irão permitir perceber de modo mais consistente a relação entre estes elementos.

O que fazer com indicadores tão aprofundados quanto estes?
A segunda fase deste projeto vai contribuir para a identificação, desenvolvimento e avaliação de estratégias de liderança e de inovação nas escolas, por parte dos professores, que irão ser objecto do monitorização e validação. Poderão vir a ser utilizadas no futuro noutros contextos, a par da identificação e disseminação de boas práticas, que também pretendemos realizar como um dos objetivos centrais deste projeto, no sentido de potenciar o profissionalismo docente através do exercício da liderança.


No estudo, os docentes queixam-se do aumento da burocracia, do volume de trabalho e da crítica em relação aos professores.

Alguns dados relevantesMotivação
A maioria dos inquiridos admite que, ao longo dos últimos três anos, a sua motivação diminuiu (61,6%), o mesmo se passando com a realização profissional (44,5%), embora com 41,7% também a referir que esta se manteve. Quanto à autoestima e ao reconhecimento do trabalho, grande parte dos inquiridos refere que ambos se mantiveram (43,6% e 46,9%, respetivamente), embora admitindo também que diminuíram neste período (39,1% e 37,6%). Os docentes referem ainda que o seu empenho e confiança se mantiveram (66,8% e 54,%, respetivamente) e que a sua competência profissional aumentou 49,4% e manteve-se em 47,8% dos casos.Exercício da Profissão
Outros aspetos apontam para um aumento da burocracia (79,7% concordam totalmente e 15,7% concordam), do volume de trabalho (76,8% concordam totalmente e 19,9% concordam) e da crítica em relação aos professores (64,2% concordam totalmente e 28% concordam). Os docentes admitem igualmente que, nos últimos três anos, se registou um maior controlo sobre o trabalho dos professores (40,2% concordam e 35,4% concordam totalmente) e um aumento na prestação pública de contas (38,% concordam e 36,6% concordam totalmente).

Outras reflexões
O estudo aborda outras vertentes relacionadas com a sociedade ou comunidade em geral. Os professores admitem que a informação veiculada pelos meios de comunicação social tem diminuído o prestígio da profissão docente (59,4% concordam totalmente e 30,6% concordam). Por outro lado, admitem que atualmente existem mais oportunidades de colaboração entre a escola e as instituições locais (53,7% concordam e 10,3% concordam totalmente) e de desenvolvimento de trabalhos e projetos com outros parceiros (51,8 % concordam e 11% concordam totalmente).

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