Doutoramento em Estudos da Criança, especialidade de Saúde Infantil

Realizaram-se no dia 2 de Maio de 2011, às 14:30 horas, as Provas de Doutoramento em Estudos da Criança, especialidade de Saúde Infantil, requeridas pela Mestre Raquel Beatriz Leitão de Sá Loureiro Ferreira, tendo como co-orientadores a Doutora Maria da Graça Ferreira Simões de Carvalho, a Doutora Maria Luísa Vieira das Neves e o Doutor Luís Paulo Lopes Brandão Areosa Rodrigues. O júri foi presidido pela Professora Doutora Laurinda Sousa Ferreira Leite e incluiu os seguintes vogais: Doutora Maria da Graça Ferreira Simões de Carvalho da Universidade  do Minho; Doutora Maria Beatriz Ferreira Leite Oliveira Pereira, da Universidade do Minho; Doutor António Pedro Soares Ricardo Graça, da Universidade do Porto, Doutora Cristina Maria Proença Padez, da Universidade de Coimbra; Doutora Maria Luísa Vieira das Neves, do Instituto Politécnico de Viana do Castelo; e o Doutor Luís Paulo Lopes Brandão Areosa Rodrigues, do Instituto Politécnico de Viana do Castelo. No final, a candidata foi aprovada por unanimidade.

Título da Tese: A obesidade da infância para adolescência: um estudo longitudinal em meio escolar.

Resumo: A obesidade pediátrica atinge níveis epidémicos na maioria dos países desenvolvidos e está a aumentar de forma acentuada nos países em transição nutricional. A investigação longitudinal dos padrões actuais de desenvolvimento da obesidade durante o crescimento, bem como dos factores associados, é considerada crucial para melhorar a eficácia da prevenção da obesidade. Em Portugal, os dados longitudinais foca dos na transição para a adolescência são escassos e o índice de massa corporal (!MC) tem sido a medida mais usada para classificar a obesidade. Deste modo, os objectivos do presente estudo foram (i) estudar os padrões actuais de mudança e de tracking da obesidade da infância para a adolescência; (ii) avaliar o impacto da utilização de sistemas distintos de classificação da obesidade sobre as estimativas resultantes (iii) analisar a associação entre o desenvolvimento da adiposidade e a idade da menarca, e (iv) identificar hábitos alimentares, padrões de actividade física, comportamento sedentário e características psicossociais que distingam os adolescentes com diferentes trajectórias de adiposidade. Os dados antropométricos foram obtidos longitudinalmente em 288 participantes do Estudo Morfofuncional da Criança Vianense aos 9 e aos 15 anos de idade. A obesidade foi definida através dos valores de corte de 25% de massa gorda (MG) para rapazes e 30%MG para raparigas, e dos valores de !MC propostos pela lnternational Obesity Task Force. Com base no estatuto obeso (O) ou não-obeso (NO) em cada momento de avaliação, identificaram-se quatro trajectórias: “NO-NO”, “O-O”, “O-NO” e “NO-O”. A idade da menarca <12 anos, 12-13 anos, e >13 anos foi classificada, respectivamente, como menarca precoce (MP), menarca média (MM) e menarca tardia (MT). As características de estilo de vida e de foro psicossocial foram recolhidas por questionário. A prevalência de obesidade (baseada na %MG) nos rapazes diminuiu de 21,9% para 14,8% (p<0,05) e nas raparigas aumentou de 14,3% para 19,5%. O tracking da obesidade foi moderado nos dois sexos (K=0,6; p<O,OOl). A percentagem de rapazes que reverteu a obesidade mais do que triplicou a das raparigas (9,7% vs. 3%; p<0,05). A prevalência total da obesidade baseada na %MG foi superior ao dobro da obtida pelo IMC aos 9 anos (18,4% vs. 7,6%, p<0,001) e quatro vezes

 

 

superior aos 15 anos (17,0% vs. 4,2%; p<0,001). Enquanto a incidência de obesidade no período de 6 anos, baseada no !MC, não diferiu significativamente entre sexos (0,8% vs. 0,6%), a baseada na %MG nas raparigas mais do que triplicou a dos rapazes (8,3% vs. 2,6%; p<0,05). A média da idade da menarca foi 12,2 anos, sendo que 26,6% das raparigas foram classificadas como MP. Comparativamente aos seus pares do grupo MT, as raparigas do grupo MP mostraram sempre adiposidade mais elevada (p=0,001)  e maior perímetro da cintura aos 15 anos (p=0,009). A incidência de obesidade (no total de 8 anos) nas raparigas MP foi superior à dos seus pares (24,1% vs. 13,8%; p=0,005). Nas variáveis de estilo de vida e psicossociais estudadas, as diferenças de género nos adolescentes que se mantiveram obesos (O-O) foram muito menos evidentes do que as verifica das nos que nunca apresentaram esta condição (NO-NO). O estudo de regressão Iogística revelou que os adolescentes que referiram ter dificuldade em fazer amigos tiveram maior probabilidade de desenvolver obesidade (NO-O) do que os que reportaram ter facilidade (OR=5,33; p=0,049). Aqueles que referiram despender mais tempo com actividade física tiveram menor probabilidade de desenvolver obesidade (OR=0,09; p=0,022) e maior probabilidade de reverter a condição (O-NO) (OR=6,73; p=0,016). Em conclusão, a discrepância entre as estimativas da obesidade baseadas em métodos distintos questiona o conhecimento da dimensão real do problema nos jovens. Enquanto nos rapazes o risco de desenvolvimento de obesidade parece ser mais elevado durante a infância, nas raparigas este risco parece persistir na adolescência. Os resultados sugerem que a menarca precoce pode estar associada ao desenvolvimento da obesidade durante a adolescência. Contudo, a “programação” desta vulnerabilidade poderá ter início antes da menarca, dado que o grupo MP já apresentava maior adiposidade do que o grupo MT aos 7 anos de idade. Apesar das mudanças fisiológicas na %MG poderem ter contribuído para a maior vulnerabilidade de desenvolvimento de obesidade durante a adolescência nas raparigas, oferecendo alguma protecção aos rapazes, os resultados sublinham a relevância da actividade física para a prevenção e tratamento da obesidade. Estratégias integradas com foco na actividade física poderão ser a chave para combater eficazmente a obesidade e também para favorecer o bem-estar psicossocial dos adolescentes, podendo e devendo a escola ter um papel preponderante neste âmbito.