Doutoramento em Estudos da Criança, especialidade de Saúde Infantil

Realizaram-se no dia 10 de julho, às 14:30 horas, as Provas de Doutoramento em Estudos da Criança, especialidade de Saúde Infantil, requeridas pela Mestre Cristiane Lima Nunes, tendo como orientadoras as Doutoras Maria Graça Ferreira Simões de Carvalho e Liliane Desgualdo Pereira . O júri foi presidido pelo Doutor Leandro da Silva Almeida tendo estado presentes os seguintes vogais: Doutora Maria Graça Ferreira Simões de Carvalho, da Universidade do Minho; Doutora Zélia Ferreira Caçador Anastácio, da Universidade do Minho; Doutora Liliane Desgualdo Pereira, da Universidade Federal de São Paulo – Brasil; Doutora Marcia Cavadas Monteiro da Universidade Federal do Rio de Janeiro – Brasil; e o Doutor Nuno Trigueiros, Doutor em Medicina pela Universidade do Porto. No final, a candidata foi aprovada por unanimidade.

Título da Tese: “A avaliação do Processamento Auditivo em crianças de 10 a 13 anos: a sua função como indicador da perturbação da comunicação e desempenho académico”

Resumo: Já nos anos 50 do século XX se dava importância a avaliar-se o Processamento Auditivo (PA) em crianças com dificuldades na comunicação (Myklebust, 1954), o que em Portugal é designado por Perturbações da Comunicação (PC), e que se refere ao prejuízo no desenvolvimento das funções comunicativas relacionadas com a expressão oral, escrita e/ou compreensão (Costa, 2011). Para além dos estudos que apontam as implicações entre a Perturbação do Processamento Auditivo (PPA) e a Perturbação da Comunicação (PC), pesquisas científicas atuais demonstram uma forte associação entre a PPA e o fraco desempenho académico (Bellis, 2000; Farias, Toniolo, & Cóser, 2004). No presente estudo pretendeu-se verificar se existe relação entre as variáveis desempenho académico e a perturbação da comunicação, bem como a avaliação comportamental do processamento auditivo, com utilização de testes não-verbais e testes verbais adaptados ao português europeu. Inicialmente foi feita uma preparação dos testes auditivos verbais que seriam aplicados aos sujeitos da amostra com gravação dos estímulos e validação em adultos com limiares de audição dentro da normalidade. Em seguida, aplicámos oito testes auditivos em uma amostra de 51 crianças com idade entre 10 e 13 anos, de ambos os sexos, frequentando escolas públicas da região Norte de Portugal. Foram reunidos em quatro grupos: Grupo com elevado desempenho Académico e de Comunicação (AC); Grupo com elevado desempenho Académico e baixo desempenho na Comunicação (Ac); Grupo com baixo desempenho Académico e elevado desempenho na Comunicação (aC); Grupo com baixo desempenho Académico e de Comunicação (ac). Procedeu-se à análise dos resultados obtidos nos oito testes auditivos aplicados para avaliação do processamento auditivo e também a verificação dos comportamentos auditivos medidos por um questionário específico (Scale Auditory Behaviour- SAB). A amostra foi estudada com base no desempenho académico e de comunicação, idade, sexo, limiar de audibilidade, e o índice de reconhecimento de fala. Todas as 51 crianças foram submetidas aos testes auditivos. Assim, para este estudo foram aplicados dois testes verbais de atenção seletiva gravados em português europeu (testes Fala com Ruido e Dicótico de Digitos), e dois testes não-verbais que medem o processamento temporal (testes Padrão de Duração e ‘Gaps-In-Noise’). Além destes, utilizou-se um teste que também mede a atenção seletiva mas com sons verbais apresentados de forma cantada (teste Dicótico de Digitos Harmónicos), e os testes do rastreio do processamento auditivo (testes de Localização sonora, Memória sequencial com sons verbais e não-verbais). Foram utilizados testes estatísticos de associação, análise de variância, razão de verosimilhanças, coeficiente de correlação de Pearson, modelo de regressão linear e múltipla, e também construí das curvas ROC para analisar os dados obtidos representados por meio de estatística descritiva. Em cada teste de hipótese foi fixado o nível de significância a 95%. Foi possível aceitar a construção dos testes Fala com Ruído e Dicótico de Dígitos em português europeu tendo em vista o enquadramento técnico da gravação na manipulação dos sons e a validação realizada na população portuguesa. Verificou-se associação entre as variáveis desempenho académico e de comunicação, concluindo-se que a presença de perturbação da comunicação prejudica diretamente o desempenho académico. Desta forma, crianças com dificuldades escolares devem realizar uma avaliação das competências comunicativas. Verificou-se que há mais crianças do sexo masculino (83,9%) do que meninas (16,1%) com dificuldades de desempenho académico. A variável idade não revelou interferência neurobiológica maturacional para os testes auditivos em crianças de 10 a 13 anos de idade. A variável limiar de audibilidade, medido pela média tritonal audiométrica, foi controlada em todos os grupos estudados e não mostrou associação com os mesmos. O Índice Percentual de Reconhecimento de Fala não apresentou respostas discrepantes entre os ouvidos ou o grupo estudado, e portanto não gerou interferência dos parâmetros estudados. Crianças com baixo desempenho académico e de comunicação têm baixos escores na pontuação, utilizando o questionário Scale Auditory Behaviour. Crianças com dificuldades académicas revelam dificuldades na ordenação temporal e portanto o uso de testes de processamento temporal são fundamentais em crianças com dificuldades académicas. Crianças com fraco desempenho académico e com perturbação da comunicação apresentam mais dificuldade em testes que envolvem a atenção seletiva, tais como o teste Fala com Ruído e Dicótico de Dígitos. A tarefa de resolução temporal, observada pela aplicação do teste GIN, foi a que melhor se associou a crianças sem dificuldade académica e de comunicação. Numa análise global dos parâmetros revelados pelas medidas de sensibilidade e especificidade, os testes de processamento temporal, foram os que apresentaram melhores níveis de confiança. Os testes cujo desempenho da amostra possibilitou estabelecer valores de referência pela medição do valor de corte através da Curva ROC foram os Testes Memória Seqüencial Verbal (maior do que 1,6 acertos); teste Dicótico de Dígitos (acertos no ouvido direito maior ou igual a 95,2%, acertos no ouvido esquerdo maior ou igual a 91.5%); teste Padrão Harmónico em Escuta Dicótica com Dígitos (acertos no ouvido direito maior ou igual a 93,3%, acertos no ouvido esquerdo maior ou igual a 81,3%); teste Padrão de Duração (acertos no ouvido direito e/ou esquerdo maior ou igual a 47,4%); e o teste Gaps-In-Noise (limiares no ouvido direito e esquerdo até 5,5ms). Os valores normativos encontrados nos oito testes do processamento auditivo são muito próximos ou idênticos aos encontrados na população brasileira, sendo que a maior discrepância foi observada no teste Fala com Ruído. Encontrou-se associação entre a ordenação temporal, medida pelos testes de Memória Sequencial Verbal e Padrão de Duração, e as classificações de todas as disciplinas. Desta forma, o desempenho académico pode ser previsto pela análise da competência de ordenação temporal/processamento temporal. A escala SAB (Scale Auditory Behaviour) tem uma forte associação com a perturbação do processamento auditivo, assim a sua utilização pode ser incentivada nas ações educativas de prevenção e saúde escolar. Por fim, apresenta-se uma proposta de trabalho com ações que podem ser implementadas num Programa de Saúde Escolar que visem avaliar o desenvolvimento de capacidades auditivas e auxiliar na prontidão para a aquisição de competências linguísticas e académicas.

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